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27 abril 2007

O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...


Álvaro de Campos






Nisa,
Abril de 2007

20 janeiro 2007

Um chapéu austríaco






A porta deslizou, revelando delicados olhos.
Perguntaste-me acerca do meu chapéu austríaco.
Falámos sobre os nossos antepassados.
Movemo-nos ao ritmo do comboio nocturno,
Alvorada, e em Vilnius abdiquei das minhas memórias.

Entras-te na minha vida sem cerimónia.
Sentimentos abandonados brotam sem convite.
Senti um segredo em ti mas ignorei-o.
No oceano da vida empurraste-me para a costa.
É areia ou estrelas nos meus olhos?

Mas o tempo forçou-me para Minsk,
O busto de Dzherzhinsky vigia os meus movimentos.
Aqui a luxúria da ausência envolve os meus passos.
An doentia auto-imersão é rapidamente quebrada.
Hoje agitação está na agenda da cidade.

Tumultos na praça Nezaleznasci são reprimidos.
Um estranho mostra-me um local seguro.
Balas de borracha assobiam uma canção sinistra.
Cães polícia ladram a carros carbonizados.
Granadas lacrimogéneas absolvem-me da compostura.

Tornei-me incapaz de ler o azimute no meu horizonte.
Perdido, perco-me em livrarias soviéticas.
Contudo aqui a sensação de duplicidade subsiste.
Desamparado, estou cada vez mais assombrado pelo teu sorriso.
Para o anarquista, o caos interior acaba de começar…


M. Daedalus


30 dezembro 2006




Eu tenho sempre Gaivotas

Do pensamento ao desejo
Que chegam em cada abraço,
Que partem em cada beijo,
Eu tenho sempre Gaivotas
Do pensamento ao desejo!

Eu trago sempre Gaivotas
Neste céu onde eu existo,
Gaivotas de dor profunda,
Dessa dor de que me visto,
Eu trago sempre Gaivotas
Neste céu onde eu existo!

Em mim há sempre Gaivotas
Em bandos, como pardais,
Gaivotas de Liberdade,
Morrem muitas, nascem mais;
Em mim há sempre Gaivotas,
Em bandos, como os pardais!
Que eu, tenho sempre Gaivotas
Do pensamento ao desejo,
Que partem em cada abraço,
Que chegam em cada beijo,
Que nascem no Coração,
Levantam voo da mente,
Gaivotas feitas futuro
E passado e presente,
Gaivotas de todo o Amor,
De sorriso, de partida,
Gaivotas feitas de morte,
De saudade e despedida;
Que ser Gaivota é ser forte,
É ser Livre para Amar,
É ser Livre de partir,
É ser Livre de chegar,
Livremente viajando
Nas vagas de cada olhar;
E, porque me perco no tempo
Por no tempo andar perdida,
Por isso é que há Gaivotas
Dentro de mim, por toda a VIDA!...


Maria Mamede, in "Pelas Letras do Alfabeto"

02 dezembro 2006

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

22 novembro 2006

No Meio do Caminho


No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade




14 novembro 2006

Declaração


Não,não há morte.

Nem esta pedra é morta,
Nem morto está o fruto que tombou:
Dá-lhes vida o abraço dos meus dedos,
Respiram na cadência do meu sangue,
Do bafo que os tocou.
Também um dia, quando esta mão secar,
Na memória doutra mão perdurará,
Como boca guardará caladamente
O sabor das bocas que beijou.


José Saramago
Os Poemas Possíveis

07 outubro 2006

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão.

Porque os outros têm medo mas tu não.

***********************************

Porque os outros são os túmulos caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.

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Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.

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Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos.

Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andersen

11 fevereiro 2006

Invenção de Marte

Madrugada de prata sobre campos

De nunca vistas ervas,onde o vento

Passa de largo e manso,num silêncio

De esmeraldas eternas.Movimento

De bailado ou de luz purificada,

Lentos canais de Marte que eu invento

Na minha humana fala condenada.



José Saramago


in,Os Poemas Possíveis