
Parvalheira,
Janeiro 2007
Há muito, muito tempo conheci uma menina chamada Bernardete.
Bernardete era feita de missangas, tinha o cabelo vermelho e verde e trazia no seu corpo maleável um belo vestido amarelo.
Todos os dias a menina ia por um longo caminho que a encaminhava para um campo de alecrim tão grande, tão grande, que as pessoas que vivem na China diziam já o ter visto por lá…mas este campo de alecrim era só de Bernardete, dela e de quem lá morava.
Às vezes, quando corria muito pelos campos de alecrim, Bernardete deixava cair uma ou mais missangas. Mas ela nem reparava nisso, tal era a sua alegria por rodopiar com o vento, dar saltos com os pássaros e conversar com as flores.
Se não fosse o Coze-Coze, Bernardete já não teria missangas. Nem uma! E se isso acontecesse, como é que contaríamos esta história? Temos de conversar com a Bernardete…
“Já reparaste que andas a perder missangas,Bernardete?” – perguntamos nós.
“Missangas? Eu ando a per-der missangas !?” - responde Bernardete, muito nervosa.
“Andas! Devias ter mais cuidado contigo ou qualquer dia,desapareces!”
“Oh! Tenho de chamar o Coze-Coze para me cozer!” – diz Bernardete, já perto dum colapso cardíaco.
“Nós íamos sugerir-te isso mesmo…” – respondemos nós, cheios de entusiasmo!
“COZE-COZE?? Oh coze-coze!!! Ajuda-me,por favor! Ai que eu estou tão aflita! Ai socorro! A – JU – DA – MEEEEEE!!”
Coze-Coze lá foi, todo apressado, depois de ter ouvido Bernardete a gritar por ele. Não podia correr muito depressa, porque as suas minúsculas pernas não o deixavam, nem os seus pequeninos pés, sempre envoltos em meias coloridas e pompom`s saltitantes, o deixavam chegar depressa aonde quer que fosse.
“Cheguei,Bernardete! Mas que gritaria é essa!?” – pergunta, admirado, Coze-Coze.
“Oh Coze-Coze, perdi missangas. Tu, por acaso, não tens aí nenhuma? Daquelas, assim, tu sabes! Daquelas que eu sempre perco…” – pergunta ela , cheia de vergonha.
“Bernardete, tens de ter mais cuidado contigo,não concordas?” – responde o Coze-Coze, metendo a mão no queixo e franzindo o sobrolho.
“Nós também achamos!” – dizemos nós.
“Vês ! Até eles acham,Bernardete! Vá lá, faz um esforço!” – diz ele, encorajando Bernardete.
“ Mas…eu…eu… eu não tenho culpa de gostar de rodopiar no céu azul, baixar-me para falar com as minhas amigas flores, rastejar no chão para dizer olá às formigas! Eu não tenho culpa,Coze-Coze! Eu sou assim… “ – queixa-se ela.
“Bernardete, Bernardete … tens de te controlar mais! Vá, dá-me cá a tua perna para eu te cozer esta missanga azul turquesa que perdeste já não sei aonde. Sinceramente, Bernardete!” – resmunga o Coze- Coze.
“Obrigada, Coze-Coze! É bom saber que posso sempre contar contigo…” – disse ela, dando um grande abraço a Coze-Coze e um beijinho na sua face fofa.
A porta deslizou, revelando delicados olhos.
Perguntaste-me acerca do meu chapéu austríaco.
Falámos sobre os nossos antepassados.
Movemo-nos ao ritmo do comboio nocturno,
Alvorada, e em Vilnius abdiquei das minhas memórias.
Entras-te na minha vida sem cerimónia.
Sentimentos abandonados brotam sem convite.
Senti um segredo em ti mas ignorei-o.
No oceano da vida empurraste-me para a costa.
É areia ou estrelas nos meus olhos?
Mas o tempo forçou-me para Minsk,
O busto de Dzherzhinsky vigia os meus movimentos.
Aqui a luxúria da ausência envolve os meus passos.
An doentia auto-imersão é rapidamente quebrada.
Hoje agitação está na agenda da cidade.
Tumultos na praça Nezaleznasci são reprimidos.
Um estranho mostra-me um local seguro.
Balas de borracha assobiam uma canção sinistra.
Cães polícia ladram a carros carbonizados.
Granadas lacrimogéneas absolvem-me da compostura.
Tornei-me incapaz de ler o azimute no meu horizonte.
Perdido, perco-me em livrarias soviéticas.
Contudo aqui a sensação de duplicidade subsiste.
Desamparado, estou cada vez mais assombrado pelo teu sorriso.
Para o anarquista, o caos interior acaba de começar…
M. Daedalus